Estudantes transformam resíduo das granjas em energia limpa e criam ciclo sustentável no interior do Paraná
Originalmente publicado por Assessoria de Imprensa.
Projeto de Colégio Estadual Maria Francisca de Souza, escola pública de Educação em Tempo Integral, em Barra do Jacaré (PR), converte cama de frango em biogás, fertilizante e material ecológico
O forte odor vindo das granjas de Barra do Jacaré, no interior do Paraná, tornou-se parte notável da rotina dos moradores, intensificando-se com o aumento do volume de aviários instalados no município. Nos dias de calor intenso, a situação se agrava. Em vez de aceitar o incômodo como algo inevitável, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Maria Francisca de Souza, escola pública de tempo integral, decidiu investigar a fundo as causas desse problema e propor soluções tecnológicas.
O ponto de partida foi uma pergunta feita pelos próprios estudantes que integram o Clube de Agrociências, desenvolvido no contexto das Eletivas da educação em tempo integral da instituição. A inquietação era entender o que provocava o cheiro que sempre incomodou quem vive na cidade. Ao longo da investigação, o grupo identificou que o odor era resultado da liberação de biogás durante a decomposição da cama de frango.
“A oportunidade de participar desse projeto veio da nossa pergunta norteadora”, explica Otávio Miguel da Silva Munhão, de 14 anos. “A gente queria saber o que era aquele cheiro, o que podia ser feito com ele ou como impedir. Descobrimos que o que sentíamos era biogás e resolvemos criar uma solução para usar isso a nosso favor.”
A estudante Lara de Freitas Ferrari relata como o problema afeta diretamente o cotidiano da cidade. “Por ser uma cidade pequena, tem muita avicultura. Aqui esse cheiro é muito forte. Todo mundo fala desse mau odor”, afirma. “A gente resolveu criar uma solução para esse problema e usar isso a nosso favor.”
A professora Vagna Aparecida da Silva Munhão, coordenadora do projeto, explica que a proposta ganhou força justamente por partir de uma necessidade concreta do território. “Os estudantes sempre comentavam sobre o cheiro. Quando entendemos que aquele odor vinha da liberação de gás, foi natural perguntar se isso poderia virar uma solução”, conta.
Ciência com criatividade e materiais reutilizados
A construção do biodigestor uniu criatividade e reaproveitamento. A primeira amostra de matéria-prima foi trazida por uma estudante da zona rural, retirada da própria granja. Para a estrutura física, utilizaram tubos de PVC comuns em instalações hidráulicas. Um ex-estudante da escola colaborou adaptando uma câmara de ar de motocicleta reutilizada para armazenar o gás produzido. A validação científica veio com tecnologia. Os estudantes conectaram um sensor de gás a um kit de Arduino para monitorar o biodigestor. O dispositivo confirmou a presença de gases no reservatório, validando o experimento. “Para mim é suficiente para a gente continuar acreditando”, celebrou a professora Vagna.
Com o avanço dos experimentos, o ciclo sustentável se ampliou. A fração líquida resultante da biodigestão (chorume) passou a ser testada como biofertilizante na horta escolar, com resultados visíveis no desenvolvimento das plantas. Maria Laura Tironi dos Santos, de 14 anos, relata como a pesquisa mudou sua visão sobre a cidade: “Eu sabia da realidade, do mau odor, mas não tinha ciência que a gente podia fazer alguma coisa com isso. Minha professora nos apresentou o que a gente poderia fazer e a gente começou a pesquisar”.
Perspectivas futuras: do biogás à construção ecológica
Além da energia e do fertilizante, o projeto abriu portas para novas investigações. Durante participações em feiras científicas, o grupo recebeu contribuições de especialistas sobre o potencial da massa sólida restante do biodigestor para a fabricação de tijolos ecológicos. Esta etapa, que visa “fechar o ciclo” da sustentabilidade, está no horizonte de pesquisa dos estudantes para as próximas fases do projeto, que pretendem desenvolver protótipos e analisar a viabilidade de uma construção demonstrativa.
A pesquisa gerou transformações pessoais profundas. Para Lucas de Souza Santos, de 15 anos, o clube trouxe novos horizontes: “Eu entrei aqui no clube, eu não sabia quase nada. Daí conforme avançamos, conheci outros lugares, eu fui aprimorando meu conhecimento”. Sophia de Souza Dutra, de 15 anos, reforça o impacto no desenvolvimento pessoal: “A professora Vagna também é muito importante para a gente, ela está abrindo a nossa visão do futuro, mostrando que a gente é capaz de fazer as coisas, de mudar o nosso ambiente”.
O projeto se conecta diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), abordando temas como energia acessível e limpa (ODS 7) e cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11). Para a professora Vagna, o resultado vai além da ciência; trata-se do papel social da escola pública. “A escola tem que acolher com amor e afeto. O caminho de transformar vidas é a educação”, afirma a educadora.
Foto: Crédito: SEED-PR